Quanta gente cabe em uma criança?

Sophie nasceu há um mês. Há um mês, eu me tornei tia. Há um mês, meu irmão se tornou pai. Há um mês, meu pai se tornou avô. E a lista poderia continuar por algumas linhas, mas essa já basta para dizer que Sophie nasceu e as coisas mudaram. A família mudou de forma e agora há relações diferentes. Além do meu pai e dos meus irmãos, tenho uma sobrinha. Meu pensamento tem um novo lugar para ir. Meu coração se inclinou a uma nova possibilidade de ternura.

Embora eu já imaginasse esse momento, nada se assemelha à realidade palpável e concreta. É intrigante ver a dinâmica dos relacionamentos se modificar. É curioso lembrar que, há dez anos, estávamos eu, meu pai, minha mãe e meus dois irmãos numa mesma casa. Naquela antiga casa, eu não pensava tanto no futuro — pelo menos, não nesse tipo de futuro. Eu pensava num futuro individual: trabalho, faculdade etc. Não pensava num futuro em que as coisas mudam para o coletivo, para toda a família.

Naquele tempo, éramos nós — meus irmãos e eu — os filhos e os sobrinhos. Os tios e os pais eram os outros. Eles cuidavam da casa, do desenrolar da vida, de nós… Uma década depois e tudo mudou de lugar. As casas são outras e as pessoas também. Apesar de certas mudanças terem sido doloridas, há mudanças muito bonitas, como a Sophie. A pequena Sophie acrescentou essa novidade aos nossos dias. Deparo-me, hoje, com uma nova camada em meu cotidiano; há um novo sentido nas coisas. Preocupo-me, felizmente, com uma pessoa diferente: a minha sobrinha.

Devo dizer também que, ao mesmo tempo que fui convidada a me ver de um modo diferente, vejo os outros tão diferentes quanto eu. Meu irmão mais velho não é mais aquele rapaz que exigia favores e desejava usufruir de seus privilégios em relação aos irmãos mais novos. Ele é um pai. Não só isso: ele é um bom pai. O meu outro irmão — o irmão do meio — compartilha comigo esse sentimento de olhar para a Sophie e desejar ser para ela uma boa pessoa; o desejo de ser o tio que a ama porque, antes, amou e ama o pai dela. Meu pai agora é um avô carinhoso, não somente um homem meio rabugento e enigmático.

Sophie nos fez ser outras coisas, além das que já éramos. Seguimos mudados. Tudo isso porque a vida corre e os dias vêm com bonitezas e boas-novas, não só com dores e despedidas. E que bom que a Sophie chegou. Ao redor de si, ela reúne esse tanto de gente e, sem imaginar, caminha para se tornar uma multidão de coisas também. Mas não quero assustá-la. Quero apenas celebrar a sua chegada e me lembrar que a vida se dá assim, na mudança.

3 comments / Add your comment below

  1. Ah, meu Deus! Que coisa mais linda e perfeita, Nivinha! 🥹 Me emocionei! Isso não é uma tia, é uma prefeita! Hahaha

    Obrigada por essas palavras tão sensíveis e tão cheias de amor. Obrigada de coracão! Sophie vai amar ler um dia. 💕💕💕💕

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