Grande Sertão: Veredas é um romance de João Guimarães Rosa e considerado por muitos como o grande clássico da literatura brasileira. A obra foi publicada pela primeira vez em 1956 e, por ser um romance experimental, é um texto que apresenta certos desafios à leitura, mas desafios que valem a pena encarar.
Uma primeira característica do livro é que ele não é dividido em capítulos; o livro é organizado como uma longa prosa. Apesar disso, pode-se considerar que o livro tem uma divisão interna: na primeira parte da obra, o protagonista, Riobaldo, compartilha episódios de sua vida de forma não linear; na segunda parte, a narrativa segue uma ordem mais cronológica de acontecimentos.
A segunda característica diz respeito à linguagem do texto e isso está relacionado à própria história. O livro aborda a vida de Riobaldo, um homem sertanejo que viveu parte de sua vida como jagunço enfrentando guerras violentas pelo sertão brasileiro. Contudo, é o próprio Riobaldo quem conta essa história, e ele conta tudo o que vivenciou a um homem que não faz parte do sertão. Ou seja, há uma tentativa, por parte do protagonista, de explicar o que é o sertão para quem não faz parte dele.
Por conta disso, o livro tem a característica de um monólogo: apesar de existir um interlocutor — o homem que ouve as histórias de Riobaldo —, é apenas Riobaldo quem fala no livro. E mais: por Riobaldo ser um homem do sertão, a linguagem do livro traz as marcas regionais do protagonista. Assim, a leitura se torna desafiadora para quem não está habituado a certas palavras ou expressões utilizadas pela personagem.
Essas características já enriquecem muito a experiência de leitura do livro. Porém, há ainda um outro ponto que torna a obra muito bonita: enquanto Riobaldo conta as suas aventuras pelo sertão e tenta explicar o que é o sertão para o seu interlocutor, ele tenta explicar o que é a própria vida para esse homem que o ouve e, nesse processo, ele sempre chega à conclusão de que viver é muito perigoso. Assim, além de conhecer a vida do sertanejo, o leitor é convidado a mergulhar questões mais profundas a partir da experiência de Riobaldo.
Com isso, a sensação ao ler Grande Sertão: Veredas é a de que uma leitura só não é suficiente. O livro diz muitas coisas, seja pelas histórias do protagonista, seja pelas questões existenciais que ele apresenta. São cerca de seiscentas páginas — uma narrativa longa — que merecem ser lidas com calma e ser revisitadas futuramente.
Como dito no início deste texto, a leitura traz os seus desafios, mas traz, na mesma proporção, um prazer enorme. Por mais que Riobaldo fale muitas vezes durante a sua narrativa que viver é perigoso, ao finalizar o livro não há outro desejo que não seja o de viver essa vida de maneira corajosa. Esse livro é, de certa forma, um convite à vida e aos seus perigos. Como disse Adélia Prado em um de seus poemas: no fim “Tudo é Grande Sertão”.
Foto: Gilton Lopes Nascimento