Aniversário

Aniversário

Aniversário Na novidade dos dias,costumava-se ouvir:— É bonito e muito bom. As coisas novas têm isso:certo fascínio; porvir.E em mim, guardo tal encanto. Também gosto do novo enutro algumas esperanças.Convenço-me pelo tempo. Quando o dia, porventura,vira e, por fora, está igual,por dentro, repito e insisto: — Há algo novo e fresco. Poema: Nívea Lopes.Foto: Gilton…

casa-coração-casa

casa-coração-casa

casa-coração-casa Cansada dessa bagunçaem que somente pus o olho;sujeira de pôr a molho,que só à força se expulsa. Imundice impregnadade que há dias não se cuida;lixo que escondido estavadebaixo de roupa suja. Numa casa não tão grandee nem de muitos segredos;apenas antigos medosque pingam a cor de sangue. Quem suporta essa limpeza?Quem tem pano suficiente?De…

Entre ocupações

Entre ocupações

‘Inda hoje, Jesus passou aqui em casa.Chegou sereno, como quem não quer nada,puxou um banco e desatou a falar.Contava histórias de um mundo distinto. Enquanto esse homem Jesus proseava,atarefada, eu ia de um canto a outro.Às vezes, ouvia o trecho de um relato.Depois, nada ouvia, pois limpava o quarto. Passado um tempo, ouvi Jesus gritar:“Vou-me…

Caso me perguntem

Caso me perguntem

Se acaso um dia alguém perguntar de hoje,terei eu muita prosa a contar daqui,direi o tanto que temiante a possível visão da morte. Talvez explique sobre a fraqueza nossa,exposta e nua a todo e qualquer olhar,sem ter em que ou quem confiarfrente à evidente escassez de força. Porém, possível é que eu apenas calee, olhando…

Mãe costureira, filha desajeitada

Mãe costureira, filha desajeitada

Em uma tarde qualquer, peguei-me lembrando dela, a mãe que costurou fé, tecidos e roupas velhas. Que carregou nas mãos fortesmarcas de agulhas e máquinas,cicatrizes e alguns cortesde diversas duras fábricas. Na peleja de um resgate, decidi também tecere talvez até revera mão que fazia arremate. Faltava-me, porém, muito:tinha todo o material,mas não tinha fé…

Escuta

Escuta

Contaram-me, esses dias, curiosa estóriade uma moça que não sabia o alfabeto,mas conhecia a beleza de outra coisa:tinha a arte de ouvir. Ouvia com esmero e ria do douto sabidoque carregava muitos densos livros,e ela, sem livros, firme, expunha a máxima:“O que tem ouvido, ouça!”. Foto: Gilton Lopes Nascimento.

Um “eu” coletivo

Um “eu” coletivo

Minha caminhada tem muita genteEm cada passo meu carrego um nomeSe tira alguém, um pedaço meu somePois sou uma soma de muitos agentes. E mesmo que algumas vozes intentem,sei que a vida solitária traz fomea quem, sozinho, em uma mesa comeo prato vazio da autossuficiência. Assim, carrego a minha mala cheia,repleta de diferentes históriasque, no…

Afora isso…

Afora isso…

Afora isso, meu amor,a vida tem o seu encantopois se nos incomodamos com a injustiçaé porque sabemos que há justiça em algum canto. Afora isso, meu amor,a verdade ainda existe e gritae a mentira nada mais é do que o contrastee o silêncio daquilo que sabemos e afirmamos com coragem. Afora isso, meu amor,experimente contemplar…

Soneto da Reprimenda

Soneto da Reprimenda

Ouvi um coro anunciar a liberdadeprometendo me salvar da vã lutamediante a voz fingida de quem jura:ser livre é provar de toda vaidade. Desejos todos se tornam verdadepor parte de quem a tudo desfrutasem ao limite conceder escutapelo dessaber da oculta maldade. Nega-se, assim, um dano inevitávela quem, sem medida, prova do lutorejeitando o negar…

Ao coração esquecido

Ao coração esquecido

Quando o meu coração desfalecee esquece alguns encantoso meu olho se levantae eu vejo o tanto de belezaresguardada lá no alto. De sobressalto o coração acordaagradecido pela gentilezae pelo lembrete da naturezaque aponta: ainda há graçamesmo na folhagem seca. Quem me tirará, então, a certezaa crença guardada no dia cinza?Pois, ainda que o coração adormeçao…