Da varanda, o gato espia a rua: observa as motos, os ônibus, os carros, as pessoas. Por vezes se assusta, abaixa, recua… Mas continua na varanda. Descobri recentemente que é um dos seus lugares favoritos. Descobri também que é bom que os gatos tenham um lugar para avistarem a parte de fora da casa; um lugar onde possam passar um tempo e até dormir. Por isso, passei a dedicar alguns minutos do dia a esta tarefa: observar o gato enquanto ele observa a rua.
Em um domingo, fiz isso despretensiosamente, e meu gato decidiu passar um tempo maior por lá. Como era domingo, não tive pressa de sair ou de apressá-lo em sua observação da avenida. Fiquei olhando o gato de dentro do meu quarto, sentada no chão. Como não esperava passar muito tempo da tarde naquela posição, estava ali de mãos vazias. Nada a fazer, além de observar. Sem poder abandonar aquele posto, eu observava o gato, que observava a rua.
Enquanto ainda estava sentada, deixei de observar o gato por alguns minutos e, de maneira imprevista, percebi outra coisa: estava feliz, finalmente. Nada de extraordinário havia acontecido, mas eu estava contente. Lembrei do poema do Drummond em que ele escreve: “Nenhum desejo neste domingo”. Lembrei e, mentalmente, propus o meu contraponto; estava eu com muitos desejos naquele domingo. Finalmente! Acho que se passaram alguns quartos de hora até o gato decidir sair da varanda. Enfim, saiu; queria comer. Fui atendê-lo e comi também, não lembro exatamente o quê. Lembro apenas que, naquela tarde de domingo, eu estive feliz e, por acaso, notei.